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Seleção de material

Comparar materiais e escolher o par que não agarra

Duas perguntas que decidem um molde. A primeira é qual aço usar — e com que dureza. A segunda é mais traiçoeira: o que corre contra o quê. É ela que determina se a bucha extratora vai deslizar por quinhentos mil ciclos ou marcar o macho na primeira semana.

Par deslizante: vai engripar?

O caso do conjunto extrator tem duas interfaces, e é aí que mora a armadilha: quase todo mundo confere o macho contra a bucha e esquece a bucha contra o furo da placa — que costuma ser a que agarra, porque a placa quase sempre é o aço mais mole e o único sem tratamento nenhum.

Macho (núcleo)

Faixa de trabalho: 4452 HRC

Cavidade, macho, postiço. O padrão do molde de injeção.

Bucha extratora

Faixa de trabalho: 4452 HRC

Cavidade, macho, postiço. O padrão do molde de injeção.

Furo da placa

Faixa de trabalho: 2834 HRC

Porta-molde e cavidade de série média.

Conjunto: Risco crítico

Este par agarra. Não é questão de se, é de quando — mude o aço ou revista um dos lados.

Interface interna — macho × bucha

Risco crítico

O furo da bucha correndo no diâmetro do macho.

Diferencial de dureza: 0 HRC

  • o macho e a bucha são o mesmo aço, sem camada que separe os dois

    Composição e estrutura idênticas é a condição ideal para solda a frio. Sob pressão, o metal de uma superfície migra para a outra, arranca, e vira o risco fundo que nenhum polimento tira. É a causa nº 1 de engripamento em molde.

  • Nenhum dos dois lados tem tratamento de superfície

    Com a afinidade que estes dois já têm, a química original de cada um fica exposta no contato, sem nada entre eles.

  • As duas peças têm praticamente a mesma dureza

    Com durezas iguais, as duas superfícies deformam no mesmo instante e se engrenam uma na outra. Abaixo de 4 HRC não há par deslizante confiável.

O que fazer

  • Troque o aço de um dos lados. Se a bucha é a peça que se troca na manutenção, mude-a: é a mais barata de refazer.
  • Ou revista um dos lados com CrN ou DLC. Uma camada cerâmica em a bucha resolve a afinidade sem mexer no aço de nenhum dos dois.
  • Abra o diferencial para 10 HRC — o caminho usual é endurecer o lado mais duro e deixar a bucha como peça de sacrifício, que desgasta e se troca.
  • Nitretação em um dos lados é o tratamento de melhor custo para este caso. Confira o revenimento antes: o processo acontece a 500–550 °C e amolece o núcleo de quem foi revenido abaixo disso.
  • Acabamento na DIREÇÃO do movimento, Ra ≤ 0,2 µm. Risco de retífica transversal é ponto de partida de adesão, e é gratuito de evitar.

Interface externa — bucha × placa

Risco baixo

O diâmetro externo da bucha correndo no furo da placa. É a que costuma ser esquecida.

Diferencial de dureza: 20 HRC

  • Famílias químicas diferentes

    Estruturas atômicas distintas não soldam a frio com facilidade. É o motivo de bucha de bronze contra eixo de aço ser um par que funciona há um século.

  • Diferencial de 20 HRC

    Está no alvo de ferramentaria para superfície deslizante, que é 10 HRC. A peça mais dura arrasta a mais mole em vez de as duas deformarem juntas.

O que fazer

  • Acabamento na DIREÇÃO do movimento, Ra ≤ 0,2 µm. Risco de retífica transversal é ponto de partida de adesão, e é gratuito de evitar.

Folga para dilatação térmica

O par pode estar perfeito no papel e travar mesmo assim, por geometria. Um molde em regime tem o macho envolvido por plástico e a placa ligada ao circuito de refrigeração — vinte graus de diferença entre os dois é rotina, e é essa diferença, não a temperatura absoluta, que fecha a folga.

O ajuste

20 µm no diâmetro.

A temperatura em que a peça foi medida. Quase sempre a da sala.

Peça interna (macho, pino)

α em uso: 11.5 ×10⁻⁶/K

Dilatação do diâmetro: 16,1 µm

Peça externa (bucha, furo)

α em uso: 11.5 ×10⁻⁶/K

Dilatação do diâmetro: 9,2 µm

Folga adequada

A folga sobrevive ao aquecimento e ainda guia a peça.

Folga em trabalho

13,1

µm no diâmetro

Dilatação diferencial

-6,9

µm — a folga fecha

Consumido pelo tratamento

0

µm no diâmetro

Mínimo H7/g6

7,3

µm · livre H7/f7: 20 µm

Como a folga chegou nesse valor

Folga de montagem20 µm
− crescimento do tratamento (dois lados, pior caso)0 µm
Peça interna dilata (+70 °C)16,1 µm — fecha a folga
Peça externa dilata (+40 °C)9,2 µm — abre a folga
Folga em trabalho13,1 µm

Para chegar ao mínimo de 7,3 µm em trabalho, a folga de montagem teria de ser 0,014 mm (14,2 µm).

  • Há 30 °C de diferença entre as duas peças, com o eixo mais quente. É essa diferença, e não a temperatura absoluta, que manda na folga.

Por que duas peças de aço agarram

O mecanismo é solda, não atrito

Desgaste adesivo — o engripamento — não é a superfície se gastando aos poucos. É solda a frio: sob pressão, duas superfícies metálicas de composição parecida se unem no ponto de contato. Quando o movimento continua, o metal de uma é arrancado e migra para a outra.

O resultado é aquele risco fundo e brilhante que nenhum polimento tira, e que só piora — a rebarba transferida vira a ferramenta que rasga o resto.

Por isso dureza sozinha não resolve

É a confusão mais cara desta área. Dois H13 a 52 HRC agarram um no outro com a mesma facilidade que dois H13 a 30 HRC — talvez mais, porque a pressão de contato é maior antes de qualquer deformação aliviar.

O que decide é a química: estruturas atômicas iguais soldam, estruturas diferentes não. Por isso bucha de bronze contra eixo de aço funciona há um século, sem tratamento nenhum nos dois lados.

O diferencial de dureza, e o número

A referência de ferramentaria para superfície deslizante é 10 HRC de diferença. Especificações mais frouxas aceitam 2 a 4 HRC quando há nitretação em um dos lados.

A razão não é a dureza em si: com durezas iguais, as duas superfícies deformam no mesmo instante e se engrenam. Com diferença, a mais dura arrasta a mais mole — e a mais mole vira a peça de sacrifício, que desgasta de forma previsível e se troca.

Nitretar não é revestir

Vale insistir porque é onde mais se erra. A nitretação endurece muito — passa de 1000 HV — mas a superfície continua sendo aço. Contra o mesmo aço, a afinidade química permanece inteira.

Um PVD cerâmico (CrN, TiN, DLC) faz outra coisa: a superfície deixa de ser metal. Sem par metal-metal, o mecanismo adesivo não tem por onde começar. É a mitigação mais forte que existe para este problema — e revestir um lado costuma bastar.

A camada branca é uma decisão, não um detalhe

Na nitretação, a camada branca de compostos é dura e excelente contra desgaste. E é frágil. Onde há fadiga térmica ou choque — postiço que sofre ciclo, molde de injeção de alumínio — ela trinca e lasca, e a trinca segue para dentro.

Ao pedir nitretação, diga se quer camada branca ou só a zona de difusão. O tratamentista faz os dois; ele só não sabe qual é o seu caso.

Furo dilata para fora, não para dentro

É a confusão mais comum sobre dilatação, e ela inverte o projeto inteiro. Um furo num corpo aquecido cresce, como se fosse material maciço: o metal em volta empurra para longe do centro. A folga abre quando você aquece só a peça externa.

Quem projeta achando que o furo fecha acaba deixando folga demais — e o extrator guia mal, gera rebarba e desalinha. O erro é simétrico ao de travar, e mais difícil de diagnosticar.

O revestimento também come folga

Um CrN de 4 µm no raio tira 8 µm do diâmetro de cada lado revestido. Se os dois lados forem revestidos, são 16 µm — numa folga de 20 µm, isso é quase tudo.

O número some do projeto de quem trata dilatação e revestimento como assuntos separados. Ou a folga é aberta antes, ou a peça é usinada já descontando a camada; o que não dá é revestir depois e esperar que caiba.

O que este cálculo não sabe

Pressão de contato, velocidade, lubrificação, alinhamento, temperatura de trabalho e folga. Nada disso entra aqui — e tudo isso pesa no resultado real.

O que a ferramenta faz é o que um projetista experiente faz de cabeça e esquece quando está com pressa: conferir se os dois lados não são o mesmo aço, se há diferença de dureza suficiente e se alguém quebrou a afinidade. É um checklist com peso, não uma simulação.

Comparar aços

Dureza, tratamento térmico e as propriedades que decidem o projeto. As notas de 1 a 5 são ordem relativa, não ensaio: tenacidade e usinabilidade não têm unidade que se compare entre fabricantes, mas todo mundo concorda que o D2 resiste mais ao desgaste e é menos tenaz que o H13.

Escolha até 4 materiais para comparar lado a lado.

PropriedadeH13P20TOOLOX 44STAVAX ESR
Dureza de fornecimento16–22 HRC28–34 HRC45–45 HRC20–24 HRC
Dureza de trabalho44–52 HRC28–34 HRC45–45 HRC48–54 HRC
Têmpera1020–1050 °C1020–1050 °C
Meio de têmperaóleo, gás ou banho de salfornecido pré-temperado; raramente se retratajá vem temperado e revenido — não trataróleo ou gás
Revenimento550 °C → 52 HRC575 °C → 50 HRC600 °C → 47 HRC625 °C → 43 HRC200 °C → 54 HRC300 °C → 52 HRC400 °C → 51 HRC500 °C → 52 HRC
Tenacidadealtaaltamuito altamédia
Resistência ao desgastemédiabaixamédiamédia
Usinabilidademédiaaltamédiamédia
Polibilidadealtamédiaaltamuito alta
Soldabilidademédiamédiamédiabaixa
Estabilidade no tratamentomédiamuito altamuito altaalta
Condutividade térmica24 W/m·K29 W/m·K33 W/m·K20 W/m·K
Módulo elástico210 GPa205 GPa210 GPa200 GPa
Onde se usaCavidade, macho, postiço. O padrão do molde de injeção.Porta-molde e cavidade de série média.Placa e postiço quando o prazo não comporta tratamento. Usina e está pronto.Cavidade de PVC, peça óptica, tudo que exige polimento alto.
FonteUddeholm ORVAR SupremeUddeholm Impax SupremeSSAB Toolox 44Uddeholm Stavax ESR

Tratamentos de superfície

A coluna que importa para engripamento é a última: se a camada final deixa de ser metal, o mecanismo adesivo acaba.

TratamentoDureza (HV)CamadaCrescimentoQuebra a afinidade?

Nitretação a gás

Difunde nitrogênio na superfície. Endurece muito e aumenta a resistência ao desgaste, sem precisar de nova têmpera.

Acontece a 500–550 °C: se o revenimento da peça foi abaixo disso, ela AMOLECE no núcleo. Confira o revenido antes.

900–1100100–500 µma peça cresce 2 a 10 µm por lado — a PENETRAÇÃO é 100 a 500 µm, mas isso é nitrogênio entrando no aço, não material somadonão — segue metálica

Nitretação a plasma (iônica)

Mesma ideia da nitretação a gás, com controle fino: dá para escolher se haverá camada branca ou só zona de difusão, e dá para mascarar região.

A CAMADA BRANCA é a decisão que importa. Ela é dura e ótima contra desgaste — e é frágil: onde há fadiga térmica ou choque, ela trinca e lasca. Para postiço que sofre ciclo térmico, peça só a zona de difusão.

900–120050–300 µma peça cresce 1 a 5 µm por lado; mais controlável que a gásnão — segue metálica

TiN (PVD)

Nitreto de titânio, dourado. Superfície cerâmica: acaba com o par metal-metal, e com ele o mecanismo de solda a frio.

Camada fina sobre substrato mole afunda e lasca — o efeito 'casca de ovo'. O substrato precisa de pelo menos ~50 HRC, ou nitretação antes (processo dúplex).

2200–24001–4 µm1 a 4 µm por lado; quase sempre absorvido pela folgasim — cerâmica

CrN (PVD)

Nitreto de cromo. Um pouco menos duro que o TiN e mais tenaz, com camada mais espessa. O padrão para molde: aguenta melhor o PVC e o desmoldante.

Mesma regra do TiN: substrato precisa sustentar a camada.

1750–21002–6 µm2 a 6 µm por ladosim — cerâmica

AlTiN (PVD)

O mais duro dos três, e o que aguenta mais temperatura. Nasceu para ferramenta de corte; em molde entra onde há abrasão de carga mineral ou fibra.

Duro e frágil: não é a escolha para choque.

3000–35001–4 µm1 a 4 µm por ladosim — cerâmica

DLC (carbono tipo diamante)

Carbono amorfo. O menor coeficiente de atrito do grupo (~0,1 a seco) — é o tratamento de escolha quando o problema é agarrar, não desgastar.

Perde acima de ~350 °C. Não serve para molde quente nem para injeção de alumínio.

1500–30001–3 µm1 a 3 µm por ladosim — cerâmica

Cromo duro

Camada eletrolítica de cromo. Barata, espessa, recupera medida de peça gasta e resiste bem à corrosão.

Continua sendo metal: contra aço, a afinidade diminui mas não some. E a camada é microtrincada — em fadiga, a trinca entra no substrato por ela.

800–110010–100 µmdeposita 10 a 100 µm por lado, e é retificado na medida depois — só consome folga se a retífica não acontecernão — segue metálica

Nitrocarbonetação (Tenifer / QPQ)

Camada de compostos com pós-oxidação. Boa contra adesão e corrosão, barata e uniforme. Muito usada em extrator e coluna-guia.

Temperatura alta: confira o revenimento do aço antes.

600–90010–30 µma peça cresce 1 a 5 µm por ladonão — segue metálica

Dúplex: nitretação + PVD

Nitreta primeiro, reveste depois. A nitretação endurece o substrato e sustenta a camada cerâmica — que é exatamente o que falta quando um PVD lasca.

Duas operações, dois fornecedores, dois prazos. Use onde o PVD sozinho já falhou.

2000–30001–5 µmsoma os dois: 3 a 12 µm por ladosim — cerâmica

Polimento na direção do movimento

Não é revestimento, e resolve mais caso do que parece. Risco de retífica transversal ao movimento é ponto de partida de adesão; acabamento longitudinal e fino (Ra ≤ 0,2 µm) reduz muito o agarramento.

Superfície espelhada demais em par deslizante pode reter menos lubrificante. O alvo é liso e direcional, não espelho.

não — segue metálica

A receita que costuma resolver

Para um conjunto extrator que corre em macho e em placa, a combinação que a ferramentaria usa há décadas é: macho em H13 nitretado a ~52 HRC, bucha em aço mais duro com CrN, e a placa deixada mais mole, como peça de sacrifício. As três condições aparecem juntas — famílias diferentes, 10 HRC de diferencial e uma camada cerâmica no meio.

E o acabamento, que é de graça: risque na direção do movimento, com Ra ≤ 0,2 µm. Marca de retífica transversal é ponto de partida de adesão, e não custa nada evitar.